Brasileense da Rua da Goiaba, Zezinho Melo é a voz marcante do rádio acreano

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Luciano Tavares

Há quase seis décadas no rádio, Zezinho Melo fala sobre sua longeva carreira e diz: “Só vou parar quando Deus quiser”

Ouvindo Fiori Gigliotti e José Carlos Araújo, dois dos principais nomes da história da narração esportiva do rádio brasileiro, José Francisco de Melo Filho, sonhava em ser narrador de futebol. E o sonho virou realidade. Hoje, aos 71 anos, Zezinho Melo é uma entidade da crônica acreana.

A construção biográfica de Zezinho Melo começa na frente do espelho ouvindo rádio e imitando narradores icônicos dos anos 1950, na Rua da Goiaba, em Brasileia, onde nasceu.

Na gênese dessa história estão a sorte, o destino e José Francisco de Melo, o pai de Zezinho Melo, amigo do saudoso Natal de Brito, então diretor da Rádio Difusora Acreana.

“Com 12 anos eu vim com meu pai para Rio Branco e ele falou com Natal de Brito e eu comecei a trabalhar na Difusora como operador de som na técnica.”

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Após pouco mais de uma semana, o talento de Zezinho foi apresentado a seu vizinho, o radialista Zé Lopes, que apresentava um programa de auditório na emissora. Nas tardes de domingo, após ouvir um clássico carioca pela Rádio Nacional de Brasília, aquele garoto de 12 anos com voz acelerada possuído pela imaginação de um estádio lotado e com torcida vibrante narrava um partida de futebol como se estivesse dentro de uma cabine de rádio. A cada gol imaginário surgia um “é fogo, é fogo, fogo!” na voz de Zezinho. Zé Lopes parecia não ter dúvida do surgimento de um talento da locução.

“O Zé Lopes tinha um programa de auditório e ele me levou para passar por um teste de locução. Passei por jurados como Delmiro Xavier, narrador à época, e Eduardo Mansour, que era comentarista, e outros jurados e grandes narradores, exigentes e excelentes profissionais”, lembra.

Narrador e jogador

Zezinho Melo rememora com um certo ar de nostalgia a época em que narrava e jogava futebol no Campeonato Acreano.

“Quando eu cheguei aqui eu jogava pelo Rio Branco. Eu narrava a partida preliminar e depois jogava a partida de fundo. Era sempre assim. Nessa época tinham por aqui grandes clássicos, torcida vibrante no estádio José de Melo, e a narrador e repórter se transformavam de um jeito que tinha mais emoção. Eu jogava na lateral esquerda e como zagueiro. Comecei no juvenil como outros jogadores. O Juventus na época foi criado praticamente com os juvenis do Rio Branco.”

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Zezinho Melo teve a oportunidade de trabalhar, a convite, em rádios do sudeste e nordeste do país, mas recusou. O sentimento pelos amigos e família falaram mais alto, conta.

“Narrei para a Rádio Itabuna da Bahia a Copa São Paulo, tive convite de rádios de Fortaleza; da rádio Clube do Pará; do Rio de Janeiro, de Manaus, a Rio Mar, mas eu temeroso preferi ficar por aqui mesmo pela família.”

O encontro com o ídolo

Encontrar um de seus ídolos da crônica esportiva foi uma emoção ímpar. Zezinho lembra que chegava ao estádio do Morumbi para a transmissão de um jogo entre Rio Branco e São Paulo pela Copa do Brasil quando conheceu uma de suas referências, o locutor Fiori Gigliotti, que morreu em 2006 aos 77 anos. Ícone da crônica esportiva nacional e autor de famosos jargões do rádio, o locutor carregava em sua biografia nada mais nada menos do que 10 Copas do Mundo.

O sonho de Zezinho Melo de narrar uma Copa do Mundo não foi possível, mas o velho locutor da rua da Goiaba narrou o
empate entre Brasil e Croácia em 1 a 1, em amistoso, no extinto Estádio Vivaldo Lima, o Vivaldão, em Manaus, pela Rádio Alvorada.
Os dois gols da partida saíram no primeiro tempo. Os croatas abriram o placar com Mila Rapajic. Mas Sávio empatou o jogo minutos depois para os donos da casa. Com Zezinho Melo naquela transmissão estavam Deise Leite, também narrador esportivo, e Garotinho M. Costa.

Zezinho também narrou um Flamengo e Rio Branco no Maracanã pela Copa do Brasil em 1997. A equipe acreana saiu derrotada de campo por 5 a 1 e foi eliminada pelo time carioca, que tinha como sua principal estrela o tetracampeão Romário. A partida ficou marcada pela expulsão do goleiro Valtemir, do Rio Branco, por agressão ao juiz da partida.

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Para Zezinho Melo o futebol local vive sua maior crise. Resultado de dívidas praticamente impagáveis.

Ele recorda craques do passado como Dadão e Touca, centroavante do Rio Branco, dois dos maiores que ele viu com a bola nos pés no antigo estádio José de Melo.

“Eles jogariam em grandes times do país hoje e na seleção brasileira com certeza”, diz Zezinho ao lamentar a qualidade técnica do atual elenco comandado pelo técnico Tite.

Delmiro Xavier e Joaquim Ferreira são alguns dos grandes narradores que passaram com destaque pelo rádio local, lembra.

“Hoje tem eu, o Deise Leite, o Gelton Lima e o Paulo Roberto. Foi uma área que já atraiu mais profissionais, hoje não.” conta Zezinho.

Atualmente, além de se dedicar à locução esportiva, Zezinho comanda o Tarde de Emoções, programa que vai ao ar todas as tardes, de segunda a sexta-feira na Rádio Difusora Acreana.

Perguntado se pensa em parar aos 71 anos de idade, dos quais mais de 50 só na locução, Zezinho responde: “Só quando Deus quiser”.