Coletor de lixo estuda com doações e passa em 2° lugar para cursar medicina

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Joel Silva, de 22 anos, estava se arrumando para mais um dia de trabalho, quarta-feira 14, pela manhã, quando foi liberada a lista de aprovados para o curso de Medicina da UFPA (Universidade Federal do Pará). Ao conferir, o rapaz, que vive como coletor de material reciclável, viu seu nome na 2° colocação entre os candidatos que pleiteavam uma vaga e estudaram em escola pública.

Joel, que vive no bairro da Terra Firme, na periferia de Belém, tirou uma nota ponderada de 826 pontos no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e vai voltar à mesma instituição que havia deixado três anos antes, ao abandonar o curso de direito. À época, explica o estudante, ele largou o curso não só porque se desestimulou com as matérias, mas pela necessidade que teve de trabalhar e ajudar a família.

Os pais de Joel vivem há mais de 15 anos com os ganhos em uma cooperativa de catadores de materiais recicláveis de Belém e, segundo o jovem, o apoiaram na busca pelo estudo desde a infância. “Eu sempre fui incentivado a buscar a leitura. Como sou de uma área periférica, tinha poucas opções de lazer, e meu hobby se tornou ler”, conta

Para ter acesso a livros, ele conta que encontrou ajuda do local de trabalho dos pais. “Eles trabalhavam em um galpão perto de minha casa, e eu ia com eles muitas vezes e sempre procurava algo para ler. Lá, além de materiais como garrafas PET e papelão, uma grande parcela era papéis e livros. E sempre tinha um material bom”, explica.

Joel afirma que sempre se interessou pelas áreas de biologia e história. “Eu gostava de literatura de diversos estilos, como a história medieval do rei Arthur. Sempre colecionava livros bons, lia também muito sobre sociologia e filosofia”, concluiu.

Rotina puxada

A rotina de Joel, conciliando os estudos para o vestibular e o serviço como coletor, era desgastante. Ele acordava às 6h para se arrumar, tomar café e ir ao trabalho. “E nesse trabalho tive uma oportunidade a mais”, conta.

“Na cooperativa, eles têm roteiro fixo, passamos por determinadas ruas e batemos de porta em porta, conversando com moradores, coletando material. E sempre tem uma relação de confiança. E nessa situação, sempre tinha algumas pessoas com empatia, que queriam saber de nós. Muitos se solidarizaram, e alguns doavam material. Foi com eles que me preparei”, diz.

O jovem conta que começava a estudar apenas por volta das 19h, e todo dia esticava até as 22h, às vezes até as 23h. “Só então eu encerrava e dormia para o dia seguinte”, explica. Ele conta que a escolha pela medicina foi motivada pela oportunidade de ajudar as pessoas de sua comunidade.

“Escolhi pelo fator de transformação social, para ter chance de dar atendimento à população. Aqui tem várias especialidades médicas que é bem difícil conseguir uma vaga. Precisamos de apoio, e quero ajudar”, afirmou o mais novo universitário. Agora, o grande desafio do jovem é garantir os seis anos de estudo para se formar médico.

“Os estudantes de baixa renda tem uma dupla barreira: entrar na universidade é a primeira; a segunda é se manter. Existe um grande índice de evasão, e espero vencer essa batalha também”, finaliza.