Vacinação da covid derruba adesão à campanha da gripe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp

José Maria Tomazela

Iniciada há 28 dias, a campanha nacional de vacinação contra a gripe tem baixa adesão em todo o País. A primeira fase terminou nesta segunda-feira, 10, com o comparecimento de apenas 37% do grupo convocado, que incluiu crianças de 6 meses a 6 anos, grávidas, indígenas e profissionais de saúde. O número de vacinados corresponde a 9,7% da meta do governo, de vacinar 90% do público-alvo até 9 de julho.

Autoridades atribuem o problema à concorrência da vacinação contra a covid-19, que desperta mais interesse da população. Alertam, porém, que imunizar contra a gripe evita casos graves de síndrome respiratória que podem piorar a situação da rede de saúde, já sobrecarregada por causa da pandemia. Além disso, ao tomar a vacina, são reduzidas as chances de idas e vindas a hospitais, o que também diminui a exposição ao vírus.

Quem pertence ao grupo convocado e não se vacinou ainda pode procurar a vacina gratuita nas unidades de saúde. A segunda fase começa nesta terça-feira, 11, com a vacinação de idosos com 60 anos ou mais e professores de escolas públicas e privadas. Conforme o Ministério da Saúde, de 27,3 milhões de doses distribuídas aos Estados, foram aplicados 7,7 milhões na primeira fase. O grupo das crianças teve melhor cobertura vacinal – 35%, seguido das puérperas, as mulheres que deram à luz há até 45 dias (33,2%), gestantes (29,4%), trabalhadores da saúde (20%) e indígenas (26,6%).

No ano passado, já com a pandemia, mas ainda sem a vacinação da covid, a campanha quase atingiu a meta, chegando a 88,8% de cobertura. Segundo especialistas, quem tomou o imunizante contra o coronavírus deve esperar pelo menos 14 dias para receber a dose contra o influenza (gripe comum).

Mesmo tendo vacinado apenas 32,4% do público previsto, São Paulo é o Estado que mais aplicou as doses (2,2 milhões), seguido de Minas Gerais e Paraná. Alagoas e o Rio Grande do Norte tiveram menos pessoas vacinadas nessa primeira fase, segundo dados do ministério. O Conselho das Secretarias Municipais de Alagoas informou que o Estado recebeu menos doses do que as necessárias e se viu obrigado a atrasar o início da campanha. Segundo o órgão, nos 102 municípios a vacinação começou no dia 5 e atingiu mais de 8 mil pessoas (0,7% do público alvo).

O Ministério da Saúde informou que as doses fornecidas pelo Instituto Butantan são distribuídas simultaneamente aos Estados, de forma proporcional aos públicos-alvo.

No interior de SP, postos abrem até no fim de semana

Com a proximidade do fim do prazo, algumas cidades do interior paulista, como Paulínia, aplicaram a vacina também durante o fim de semana. Em Campinas, o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Saúde (SinSaúde) chegou a fazer um apelo para que os filiados tomassem a vacina. “O que percebemos é que quem recebeu as duas doses contra a covid está com receio de ter uma reação de tomar a vacina da gripe, mesmo depois dos 14 dias”, disse a presidente, Sofia Rodrigues do Nascimento.

A puérpera Gabriela Moreno, de Sorocaba, deu à luz a um menino em 28 de março e tomou a vacina da gripe em 29 de abril. “Tive um pouco de reação e cheguei a pensar que estava com covid, pois perdi a minha bisavó com essa doença. Não era covid e, agora, vacinada contra a gripe, me sinto mais protegida. Estando imunizada, acredito que meu bebê, o Gabriel, e meu outro filho, Miguel, também ficam mais protegidos”, disse.

Já a aposentada Neusa Máximo de Oliveira, de 82 anos, que todo ano toma a vacina da gripe, em Sorocaba, não pretende se vacinar agora. “Tomei a primeira dose da vacina da Oxford contra a covid-19 e estou esperando a segunda dose para este mês. Então, só vou tomar a vacina da gripe pelo menos duas semanas depois da segunda dose”, explicou. Ela disse que se vacina contra a gripe há vários anos e não teve mais a doença que a incomodava com frequência.

Coordenadora de Imunização do Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo, Helena Sato acredita que a maior preocupação das pessoas com a vacina contra o coronavírus pode ser uma das causas da baixa adesão. “As pessoas estão mais preocupadas com a covid, o que é compreensível. Quem está nos grupos prioritários deve mesmo dar prioridade à vacina contra a covid e, tendo recebido essa vacina, esperar 14 dias para tomar a da gripe. Mas é importante receber as duas vacinas, cada uma a seu tempo. Estamos reforçando muito isso”, disse.

Outro possível motivo da menor adesão, segundo ela, é o medo das pessoas de pegarem o vírus ao comparecerem aos postos de vacinação. “Temos uma pandemia, estamos há um ano falando que é importante ficar em casa e agora pedimos para irem tomar a vacina. As pessoas não devem ter esse medo. Estão sendo tomados todos os cuidados para reduzir esse risco ao mínimo.”

Segundo Helena, as vacinas da covid e da gripe são aplicadas em ambientes separados e, se alguma pessoa se apresenta com sintomas gripais, é orientada a remarcar a data. “Aqui na capital (São Paulo), por exemplo, a vacinação contra a gripe acontece em escolas que estão sem aulas.”

Etapas

Para reduzir aglomerações, a campanha foi dividida em três etapas, que se estendem até 9 de julho. Nesta fase – dos idosos e professores das redes pública e privada – devem ser vacinadas só em São Paulo 7,8 milhões de pessoas. Já a terceira etapa começa em 9 de junho para pessoas com comorbidades, caminhoneiros, portuários, trabalhadores do transporte coletivo, profissionais de segurança e do sistema prisional e, ainda, a população privada de liberdade.

A especialista faz um apelo para que as famílias se preocupem com a imunização das crianças, grávidas e mães que deram à luz recentemente. Quem não conseguir tomar a vacina em sua fase deve procurar a unidade de saúde logo que for possível. A vacinação é gratuita. “Com a circulação de doenças respiratórias como a gripe e a covid-19, toda medida preventiva é necessária”, disse. Segundo ela, a vacina é composta apenas de fragmentos do vírus e garante a imunização sem causar gripe.

O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério, Arnaldo Medeiros, disse que, em momento de uma pandemia, a vacinação contra o vírus da influenza torna-se ainda mais importante. “Os estudos demonstram que a vacina pode reduzir o número de hospitalizações por pneumonia e mortalidades por complicações da influenza.” Ele reforçou a recomendação de que as pessoas com sintomas de gripe ou outros relacionados à covid esperem ficar recuperados para tomar a vacina. O ministério passou a divulgar vídeos sobre a vacinação em redes sociais.

Essa é a 23ª campanha de vacinação contra a gripe. As vacinas deste ano, contra três cepas de influenza, são produzidas pelo Butantan, que repassa 80 milhões de doses para o país todo. O instituto paulista produz também a Coronavac, a vacina mais utilizada no País na campanha de imunização contra a covid. O atraso na chegada de insumos da China, porém, tem atrapalhado o cronograma de imunização.

Estadão